Accompagnons les flâneries de poètes de langue portugaise, les compositions de rimes, les pensées inquiètes ou riantes, de Fernando Pessoa, Luis de Camões, Florbela Espanca, António Nobre, Avelina Noronha, Manuel Fonseca... (o tradutor à direita da página poderá contribuir para uma melhor compreensão dos textos. Obrigada)
Pausa deste blog
lundi 1 novembre 2021
Virgínia Vitorino - "Renúncia / Renoncer"
dimanche 24 octobre 2021
Murilo Mendes - "NOTURNO RESUMIDO - RÉSUMÉ NOCTURNE"
Après avoir publicé un poème de Maria da Saudade Cortesão dans le post précédent, voici la poésie de son mari le poète brésilien Murilo Mendes.
NOTURNO RESUMIDO
A noite suspende na bruta mão
que trabalhou no circo das idades anteriores
as casas que o pessoal dorme comportadinho
atravessado na cama
comprada no turco a prestações.
A lua e os manifestos da arte moderna
brigam no poema em branco.
A vizinha sestrosa da janela em frente
tem na vida um camarada
que se atirou dum quinto andar.
Todos têm a vidinha deles.
As namoradas não namoram mais
porque nós agora somos civilizados,
andamos no automóvel gostoso pensando no cubismo.
A noite é uma soma de sambas
que eu ando ouvindo há muitos anos.
O tinteiro caindo me suja os dedos
e me aborrece tanto:
não posso escrever a obra-prima
que todos esperam do meu talento.
Murilo Mendes
RÉSUMÉ NOCTURNE
La nuit suspend dans sa main rugueuse
qui a travaillé dans le cirque des âges précédents
les maisons où les gens dorment sagement
en travers du lit
acheté chez le turc en mensualités.
La lune et les manifestes d'art moderne
se disputent dans le poème vide.
La voisine charmante de la fenêtre d'en face
a dans sa vie un camarade
que s'est jeté du cinquième étage.
Chacun a sa petite vie.
Les copines ne sortent plus avec nous
car maintenant nous sommes civilisés,
nous roulons dans une belle voiture en pensant au cubisme.
La nuit est un amoncellement de sambas
que j'écoute depuis de nombreuses années.
L'encrier qui tombe me salit les doigts
et cela m'embête tellement:
je ne peux pas écrire le chef-d'oeuvre
que tous attendent de mon talent.
mardi 12 octobre 2021
Maria da Saudade Cortesão - "Primavera / Printemps"
PRIMAVERA - Maria da Saudade Cortesão Mendes
A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Avec ma traduction d'amateur (printemps en portugais é du genre féminin) :
PRINTEMPS
N'était pas celle que tu connaissais.
Elle arrivait en lune décroissante
Par intervalles habillée
Par des miroirs bleus
Et des jonquilles froides.
Quelle mare si douce
Qu'il y avait dans ses seins!
Quels myosotis laiteux
Dans ses veines vacillantes,
Trois tangentes qui touchaient
Son coeur indécis.
Tu n'as pas connu son corps —
La terre qui à l'aube
S'offrait avec sa blessure,
Ni ses cours d'eau.
Ton regard se perdait si loin
Pendant que l'amour te regardait.
un autre poème trouvé sur le net:
OFÉLIA
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.
Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada —
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.
Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.
Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.
samedi 25 septembre 2021
Gabriel Fernandes da Trindade: DUETO CONCERTANTE
samedi 11 septembre 2021
O Hino da Independência do Brasil - 1822
No vídeo do Youtube, encontramos a seguinte explicação:
Já podeis, da Pátria filhos, Vous pouvez, fils de la Patrie,
Ver contente a mãe gentil; Voir heureuse la mère gentil;
Já raiou a liberdade La liberté rayonne déjà
No horizonte do Brasil. À l'horizon du Brésil
Longe vá, temor servil: Loin s'en va, la peur servile:
Ou ficar a pátria livre, Ou avoir la patrie libre,
Ou morrer pelo Brasil. Ou mourir pour le Bresil.
Da perfídia astuto ardil, De la finaude et astucieuse rouerie,
Houve mão mais poderosa: Il y eut main plus puissante:
Zombou deles o Brasil. D'elles se moqua le Brésil.
Longe vá, temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
São muralhas do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá, temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.
Resplandece a do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá, temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
jeudi 19 août 2021
Alda do Espírito Santo - Em redor da minha baía / autour de ma baie
Em Torno da Minha Baía
Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições
Autour de ma baie
Assise au bord du quai de ma baie
du cais symbolique, des fardeaux,
des malles et de la pluie
qui tombe à torrents
sur le quais démantelé,
tombant en ruines
je voudrais voir autour de moi,
en ces heures chaudes du couchant
dans la tiédeur tropicale
de cette terre d'Afrique
au bord du quai qui s'effondre en ruines,
abrités par un auvent mobile
une legion de petites têtes,
autour de moi,
dans un vol magistral autour du monde
dessinant dans le sable
le sentier de toutes les destinées
en peignant sur la grande toile de la vie
une belle histoire
pour les hommes de tous les pays
murmurant en coeur, des chansons mélodieuses
dans un air universel
dans un cortège gigantesque de poésie humaine
dans la plus belle de toutes les lessons:
HUMANITÉ
lundi 2 août 2021
Álvares de Azevedo - "Meu desejo / Mon Désir
Meu Desejo
Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta….
Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra….
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra….
Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.
Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escumilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!
Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro….
Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!
Que ta douce petite main serre:
Le camélia qui se fane sur ton sein,
L'ange que de te voir le ciel déserte….
Mon désir? serait d'être le soulier
Qui au bal, ton joli petit pied enserre….
L'espoir dans le futur dont tu rêves,
La nostalgie que tu as ici sur la terre….
Mon désir? serait d'être ce rideau
Qui ne raconte pas les mystères de ton lit;
D'être de ton collier de soie noire
La croix sur ta poitrine lorsque tu es endormie.
Mon désir ? serait d'être le miroir
Qui te voit la plus belle lorsque tu défais
Du bal les vêtements d'organdi et de fleurs
Et qui en amoureux regarde tes nus attraits !
Mon désir ? serait d'être de ton lit
Le drap de fine toile, et le coussin
Avec lequel tu recouvres le sein, où tu reposes,
Les cheveux dénoués, le visage séduisant….
Mon désir? serait d'être la voix de la terre
Que de l'étoile du ciel puisse entendre l'amour!
Être l'amant dont tu rêves, celui que tu désires
Dans tes rêveries enchantées de langueur!











