sinhá nom donné à la maîtresse de maison dans les fermes du Brésil (de senhora)
Accompagnons les flâneries de poètes de langue portugaise, les compositions de rimes, les pensées inquiètes ou riantes, de Fernando Pessoa, Luis de Camões, Florbela Espanca, António Nobre, Avelina Noronha, Manuel Fonseca... (o tradutor à direita da página poderá contribuir para uma melhor compreensão dos textos. Obrigada)
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dimanche 7 mars 2021
Gonçalves Crespo - "A sesta - la sieste"
sinhá nom donné à la maîtresse de maison dans les fermes du Brésil (de senhora)
dimanche 21 février 2021
Fernando Pessoa - "A última nau - le dernier bateau"
A última nau
Levando a bordo El-Rei
D. Sebastião,
E erguendo, como um
nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao
sol aziago
Erma, e entre choros de
ânsia e de pressago
Mistério.
Não voltou mais. A que
ilha indescoberta
Aportou? Voltará da
sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a
forma do futuro,
Mas Sua luz projeta-o,
sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo
a alma falta,
Mais a minha alma
atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que
não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração
teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei
que há a hora,
Demore-a Deus,
chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e
a névoa finda:
A mesma, e trazes o
pendão ainda
Do Império.
Fernando Pessoa em "Mensagem"
Ma traduction d'amateur:
Le dernier bateau
Emportant à son bord le Roi Dom Sebastião,
Et en hissant, comme un nom, haut, l’étendard
De l'Empire,
Partit le dernier bateau, sous le soleil amère
Errant, parmi les cris d’angoisse et de prophétique
Mystère.
Il n'est pas revenu. A quelle île inconnue
A-t-il accosté? Reviendra-t-il du sort incertain
Qu'il a connu?
Dieu se réserve le corps et la forme du futur,
Mais Sa lumière se projecte, rêve sombre
Et court.
Ah, plus l'âme au peuple faiblit,
Plus mon âme atlantique se raffermit
Et se répand,
Et en moi, dans un océan qui n'a ni de temps ni d'espace,
Je vois entre le brouillard ta silhouette blême
Revenant.
Je ne sais pas l’heure, mais je sais qu'il y a l’heure,
Que Dieu la retarde, l’appelle l’âme partante
MystèreTu surgis au soleil en moi, et la
brume part:
La même, et de l'Empire tu portes encore
L'étendard.
lundi 15 février 2021
Vicente de Carvalho - Palavras ao mar / Paroles a la mer
PALAVRAS AO MAR
Mar, belo mar selvagem Mer, belle mer sauvage
Das nossas praias solitárias! Tigre De nos plages solitaires! Le tigre
A que as brisas da terra o sono embalam, Dont les brises de la terre bercent le sommeil,
A que o vento do largo eriça o pelo! Dont le vent du large soulève la fourrure!
Junto da espuma com que as praias bordas, Près de l'écume dont tu bordes les plages,
Pelo marulho acalentada, à sombra Par la houle attiédie, à l'ombre
Das palmeiras que arfando se debruçam Des palmiers qui se penchent essouflés
Na beirada das ondas – a minha alma Au bord des vagues - mon âme
Abriu-se para a vida como se abre S'est ouverte à la vie comme s'ouvre
A flor da murta para o sol do estio. La fleur de myrte au soleil de l'été.
Quando eu nasci, raiava Quand je suis né, le mois clair
O claro mês das garças forasteiras: Des hérons apatrides débutait:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros, Avril, souriait en fleur sur les collines,
Nadando em luz na oscilação das ondas, Nageant lumineux dans l'ocillation des vagues,
Desenrolava a primavera de ouro; Le printemps d'or il dépliait;
E as leves garças, como folhas soltas Et les hérons légers, comme des feuilles éparses
Num leve sopro de aura dispersadas, Dans un léger souffle de brise dispersées,
Vinham do azul do céu turbilhonando Venaient de l'azur du ciel en tourbillonnant
Pousar o voo à tona das espumas… Poser leur envol au-dessus des écumes...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os saco de mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes…
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de tu unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouvia,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
O velho condenado, ao cárcere
das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores…
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
– Longínquo céu – de um esplendor distante.
Debalde, o mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes…
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias!
Tigre de que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pelo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas…
Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino… Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o voo!
Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives – entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem…
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!
Fosse tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem – áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte…
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante – perto
Do teu desejo e além do teu alcance!
Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
– Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada…
Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma…
Eu adivinho mais: eu sinto… ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.
Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!… A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!
Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida…
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos…
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!
lundi 8 février 2021
Casimiro de Abreu - "Meus oito anos - Mes huit ans"
Meus Oito Anos Mes huit ans
Oh! Que saudades que tenho Oh! Comme vous me manquez
Da aurora da minha vida, Toi l'aube de ma vie,
Da minha infância querida Toi mon enfance chérie
Que os anos não trazem mais! Que les années ne verront plus!
Que amor, que sonhos, que flores, Combien d'amours, de rêves, de fleurs,
Naquelas tardes fagueiras Dans ces après-midis enjôleurs
À sombra das bananeiras, À l'ombre des bananiers,
Debaixo dos laranjais! En dessous des orangeraies!
Como são belos os dias Comme ils sont beaux les jours
Do despontar da existência! De l'éveil de l'existence!
- Respira a alma inocência - L'âme exhale l'innocense
Como perfumes a flor; Comme la fleur les parfums;
O mar é - lago sereno, La mer est - un lac serein,
O céu - um manto azulado, Le ciel - un manteau azuré,
O mundo - um sonho dourado, Le monde - un rêve doré,
A vida - um hino d'amor! La vie - un hymne d'amour!
Ci-dessous, le beau poème en entier
MEUS OITO ANOS
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã.
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberto ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Casimiro de Abreu
mercredi 20 janvier 2021
Antonio Vieira - "Citações / citations"
Source de l’image https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Vieira
source de l'image https://pt.wikipedia.org/wiki/Col%C3%A9gio_dos_Jesu%C3%ADtas_(Salvador)
mardi 12 janvier 2021
A Esperança
https://www.poesia-espiritual.com.br/2020/12/esperancar-no-ano-novo.html
Angela
mardi 5 janvier 2021
Pedro Escobar - "O vilancete - le villancico"
Significado de vilancete: antiga composição poética de caráter
campesino, constituída por um terceto (dito mote) glosado em duas ou mais
oitavas (ditas voltas), cujo verso final repete integral ou parcialmente um dos
versos do terceto,
e ainda
Vilancete, vilancico ou vilhancico era uma forma poética comum na Península Ibérica, na época da Renascença. Os vilancetes podiam também ser adaptados para música: muitos compositores ibéricos dos séculos XV e XVI, como Juan del Encina ou o português Pedro de Escobar compuseram vilancetes musicais.
(Pedro Escobar)
De ce côté de la rivière
De ma douleur prend pitié
Et si tu y mets du retard
Pour me venir en aide
Tu ne pourras plus me secourir
Quand ma passion viendra a grandir
Ne souhaite pas ma perte
Car je confie en ta bonté
De ma douleur prend pitié
Si de ce côté échoue
le répit de mes tourments
et de l'autre la bataille
de mes tristes égarements.
Oh bonne fortune! Apporte les vents
humbles, doux, sans faculté,
De mon amour prend pitié.
Àquela parte do rio
Condói-te da minha dor
Que se te atrasas
em vir a socorrer-me
não poderás depois valer-me
à medida que a minha paixão cresce
Não queiras a minha perdição
Pois na tua bondade confio
Condói-te da minha dor
O que dessa parte se falha
descanso dos meus tormentos
e naquela batalha
dos meus tristes perdimentos.
Oh, boa sorte! Traz os ventos
humildes, mansos, sem primor,
condói-te do meu amor.










