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dimanche 10 juin 2018

Ana Paula Tavares- "Canto de nascimento / Chanson de la naissance"


Ana Paula Tavares


Ana Paula Ribeiro Tavares, née à Lubango le 30 octobre 1952, est une poétesse et écrivain angolaise.
Historienne de formation, elle enseigne, de nos jours, la littérature africaine à l'Université Católica de Lisbonne.





Je vous invite à lire un des poèmes de cette grande poétesse contemporaine, que j'ai traduit (en amateur) pour vous aider à mieux le comprendre. Dans ses oeuvres, l'auteur revisite l'histoire et la condition de la femme africaine.

Canto de nascimento / le chant de la naissance 

Le feu est allumé
les mains sont prêtes

le jour a arrêté sa marche lente
pour plonger dans la nuit.

Les mains créent dans l'eau
une nouvelle peau

des draps blancs
une casserole qui bout
plus la lame à couper

Une douleur aigue
qui marque les intervalles du temps
vingt courges de lait
que le vent transforme en beurre

la lune posée sur la pierre à aiguiser

Une femme offre à la nuit
le silence ouvert
d'un cri
pas de son ni de geste
rien que le silence ainsi ouvert au cri
poussé entre les intervales des larmes

Les vieilles égrènent de lentes mémoires
qui éclairent la nuit avec des mots
puis se réchauffent les mains qui allument des feux

Une femme brûle
sur le feu d'une douleur gelée
pareille à toutes les douleurs
la plus douleureuse des douleurs.

Cette femme brûle
au milieu de la nuit perdue
recevant la rivière
pendant que les petits enfants dorment
leurs petits rêves de lait.



Voici le texte original du poème:
Canto de nascimento
Aceso está o fogo  
prontas as mãos  

o dia parou a sua lenta marcha 

de mergulhar na noite.  

As mãos criam na água  

uma pele nova  

panos brancos 

uma panela a ferver  
mais a faca de cortar 

Uma dor fina 

a marcar os intervalos de tempo 
vinte cabaças de leite 
que o vento trabalha manteiga 

a lua pousada na pedra de afiar 


Uma mulher oferece à noite

o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória

que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde

no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.
– Ana Paula Tavares, em “O lago da lua”.

Ana Paula Ribeiro Tavares nasceu no Lubango, província da Huíla, a 30 de Outubro de 1952. Passou parte da sua infância naquela província, onde fez os seus estudos primários e secundários. Iniciou o seu curso de História da Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED-Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o Mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente vive em Lisboa,...
source:https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=2258
Je vous invite aussi à connaitre Lubango, ville natale de Ana Paula Tavares, une ville construite par les Portugais dans le sud d’Angola, et qui s’appelait Sá da Bandeira avant l’indépendance de la colonie (1975), et avant la guerre:
 
Angola de outros tempos Sá da Bandeira Lubango 2 
Publié par Ilidio G Ferrão  
Angola de outros tempos Sá da Bandeira Lubango 2 
Publié par Ilidio G Ferrão 


É com muito gosto respondo ao seu convite:) da 39ª EDIÇÃO DO POETIZANDO E ENCANTANDO da querida Prof. Lourdes qui nos propõe várias imagens, entre as quais esta

2ª Imagem - UMA PAISAGEM de um grande lago, sol brilhante a iluminar, uma jovem pensativa, caminha descalça na areia.
source: https://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.pt/

Deusa materna

Eu, mulher, integro por género e condição,
o mar de lamúrios reprimidos e infindáveis
que palmilham o tempo e o rumo,
de ritos longínquos e improváveis

Queimam-me as fagulhas de fogueiras,
da doce terra quente subsariana,
que competem com as estrelas
em delírios azuis, de Copacabana

Oiço os cânticos das divindades,
oriundas de pântanos e de lagos,
chegam-me os queixumes dos morros,
filhos de pálido luar, e leves afagos

Assim sigo pela praia lusitana
descalça, de olhos fixos no cenário
de água e contornos ondulantes,
lendo estrofes, de esmero lendário

E eis que ao acaso, deixada na estrada
a deusa materna de ventre fecundo
esconde o grito do seu clamor
em dobras de silêncio profundo

Angela